terça-feira, 4 de março de 2014

O mute

Antes de qualquer comentário, leia.

Algo que sempre percebo no mundinho é que geralmente falar da opressão é interpretado como enfrentar a opressão. Quem não fala está "vivendo num mundo de faz-de-conta", está "mentindo para si sobre quem se realmente é", está "se negando como as outras pessoas lhe negam", está "jogando o jogo do opressor" etc. Ou seja: "ligar o mute" é, desculpem a piada, "trair o movimento".

A única coisa que tenho a declarar. EU LIGO SIM O MUTE!!!!

Por quê?

Simples: em outros relatos, disse que minha vida, por tudo o que construí e conquistei, não se resume somente a discutir a existência do ser e a queixar-me de que o mundo conspira contra mim.

Poderia estar fadada a um destino sem esperança. Eu o reverti. Pode não ter sido da forma considerada pelo mundinho como a "louvável", mas o reverti, à minha maneira.

E isso não me torna melhor ou pior que ninguém. Muito pelo contrário. Me humaniza, me normaliza, me empodera. Num mundo em que há tantas reclamações de desumanização, descaracterização, despoderamento, desrespeito, desqualquercoisa, conseguir achar na sua luta interna uma possibilidade de seguir em frente numa aparente "normalidade" pode ser até mal visto.

Eu lhes digo: não há demérito em ser "normal". O diferente pode ser "normal". Vejam todas as revoluções de costumes que tivemos no século passado. E as que temos agora. Quem diria há 70 anos atrás que uma mulher poderia usar calças perfeitamente sem ser chamada de "sapatão", de "subversiva"? E quem diria há 20 anos que um homem ousaria ir de saia ao trabalho ou na faculdade (desde que não fosse numa festa escocesa) correndo o risco de ser chamado de "viado" (ou até de sofrer agressão) por uma questão simplesmente prática?

Agora, há quem diga que não, que você que tem que denunciar, que não se deixar oprimir é gritar e espernear, porque é sua obrigação como pessoa T. Obrigação dada por quem, criatura?

Não falar a cada 5 frases que sou oprimida não é o mesmo que submeter-se à opressão. Não passar o dia inteiro falando de transfobia e de que sofro transfobia não é o mesmo que aceitá-la ou negar minha própria existência como ser que dela sofre. Não usar termos pomposos a cada 5 palavras que falo não quer dizer que eu não os conheça ou que eu os ignore.

Ligo o mute por economia de neurônios que já são por demais ocupados. Não uso palavras que parecem saídas de um dicionário de uma língua distante porque não os vejo cabíveis na linguagem que uso para me comunicar. Não grito porque gritei demais antigamente e minha voz me irrita. Não falo de sofrimento porque eu posso não ter sofrido como tantas sofrem, e só eu consigo entender o meu sofrimento.

Ligo o mute não para fechar meus olhos.
E sim porque eles estão bem abertos.
E olhos veem melhor que a boca.

Vídeo da noite: Cristina Donà - Le solite cose

Sufoca a madrugada uma imagem sobre o vidro
Que ainda não sei onde colocar
Bate forte contra a janela e me obriga a pensar!
No meu vestido apenas gelo e sob os pés nenhuma terra
Não posso ficar, mas quero ficar parada olhando, olhando...
Há confusão pelas coisas de sempre...


Um comentário:

Liz Miranda disse...

Não te vejo "ligando o mute". Te vejo falando quando acha necessário e calando quando acha que as palavras são desnecessárias.